Band manipula informações para criminalizar movimento social.

Em reportagem mentirosa e caluniosa veiculada no programa Brasil Urgente na última segunda-feira, dia 15 de julho, a TV Band manipulou informações para tentar desmoralizar e criminalizar manifestantes e deslegitimizar um movimento social aos olhos da sua audiência.

Confira a reportagem da Band clicando aqui.

375px-Graham's_Hierarchy_of_Disagreement1.svg

O Diagrama de Graham lista o argumentum ad hominem como a segunda forma mais baixa de argumentação, estando acima apenas dos xingamentos.

A tentativa de manipulação da opinião pública começa de forma sutil já nos primeiros 35 segundos, quando a repórter comenta que a mãe de uma manifestante foi buscá-la de carro na frente da Câmara de Vereadores, como se jovens que ainda dependem dos pais não tivessem o direito de protestar,  ou como se quem anda de carro não tivesse o direito de protestar por um melhor transporte público. Pelo contrário, o fato de alguém que protestar por algo que visa o bem comum – como o transporte público de qualidade – e não beneficia a essa pessoa em particular, só mostra que ela não está lá para defender apenas os seus interesses, mas sim pelo bem maior. Esse tipo de estratégia, de desqualificar os manifestantes e não as suas reivindicações é um artifício muito comum, conhecido como argumentum ad hominemou seja, um argumento que ataca a pessoa e não as idéias desta pessoa.

Aos 50 segundos, a repórter emite primeira mentira descarada: “Funcionários que chegavam para trabalhar eram barrados” para em seguida ser desmentida pelas imagens da própria reportagem que mostram um manifestante que se aproxima da janela de um carro que tenta entrar na Câmara e informa: “É feriado hoje, tá? Não precisa entrar, se quiser pode entrar.” Ou seja, os manifestantes não estavam barrando os servidores da Câmara, mas informando-os que os vereadores haviam determinado numa reunião em um restaurante que não haveria expediente na segunda-feira, dia 15/07.

A 1 minuto e 20 segundos uma breve deturpação dos fatos. A repórter afirma que a imprensa está impedida de entrar na Câmara de Vereadores, o que não é de fato verdade, visto que jornalistas independentes têm livre acesso às dependências da Câmara. Até onde sei, os únicos jornalistas que sofreram restrições foram os que trabalham para grandes conglomerados, como Globo e Bandeirantes e, acredito que até aqui, a Band já mostrou muito bem que essa limitação de acesso é justificada, pois não possuem a intenção de informar, mas sim de manipular a opinião pública. E ainda vai piorar…

Aos dois minutos e 15 segundos  a desinformação atinge níveis absurdos. A repórter afirma que “uma representante do Bloco de Lutas Pelo Transporte Coletivo” foi até a imprensa informar sobre a posição dos manifestantes sobre o pedido de reintegração de posse. A reportagem afirma que a jovem estava “visivelmente sob o efeito de drogas” e que falou palavras sem sentido. Na verdade, o que a moça estava fazendo não era uma declaração à imprensa em nome do Bloco, senão uma apresentação teatral, uma performance artística para debochar da cobertura da grande mídia e da opinião de comentaristas como Lasier Martins, da RBS, que tentam criminalizar os manifestantes rotulando-os de “anarquistas mascarados”. A jovem atriz apresentou-se como representante dos Mascaristas Anarcados e o trecho que foi ao ar na Band era um trecho da música que a jovem apresentou, debochando de Lasier Martins. Confira abaixo o vídeo com a performance da artista na íntegra:

Ao término da reportagem, entra o apresentador do Brasil Urgente, Paulo Bogado, questionando: “Como é que o Brasil pode ser sério? Como é que você vai cobrar de alguém com seriedade, vai cobrar passe livre, vai cobrar alguma coisa com esse tipo de gente aí?” Na verdade, a pergunta que fica é: como é que o Brasil pode ser sério com esse tipo de imprensa agindo impunemente? O Bloco de Lutas deveria entrar com uma ação contra a TV Band por difamação e calúnia. Se a presidente Dilma Russef realmente tivesse interesse em defender a democracia e não os interesses de empresas de comunicação e empresários ela exigiria a imediata cassação da concessão desta emissora, por mentir e manipular a população brasileira.


Sorria, você está sendo monitorado.

cctv2Um relatório divulgado nesta semana pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) admitiu a existência de agentes infiltrados nas redes sociais e movimentos populares que monitoram e fazem relatórios diários sobre as atividades de possíveis líderes e pessoas influentes nestes grupos. A mobilização através de redes sociais, como Facebook, permite uma divulgação rápida e de grande alcance, atraindo um grande número de participantes, mas ao mesmo tempo expõe os dados pessoais dos ativistas, que ficam livres para o escrutínio por parte destes agentes – sejam eles bem ou mal intencionados.

Até mesmo Promotor de Justiça defende o retorno dos militares e o assassinato de manifestantes pacíficos.

Até mesmo Promotor de Justiça defende o retorno dos militares e o assassinato de manifestantes pacíficos pela Polícia Militar.

Muitas pessoas crêem que por estarem fazendo o que acreditam ser correto e não violarem nenhuma lei não precisam temer a vigilância. Isto pode-se revelar um equívoco de graves conseqüências já que as forças do status quo, do governo às instituições privadas, são perfeitamente capazes de ignorar leis, distorcê-las ou simplesmente criar uma nova legislação e assim tornar possível a perseguição pública de indivíduos politicamente ativos, potenciais líderes ou simplesmente quem divulga muita informação indesejada. Isso é ainda mais fácil em um país como o Brasil, que há pouco saiu de uma ditadura militar que perseguiu, seqüestrou, torturou e assassinou milhares de dissidentes e onde os responsáveis pela violação de tantos direitos humanos não foram punidos nem publicamente condenados, pelo contrário são vistos como heróis por muitos conservadores por salvar o Brasil da ameaça comunista. Ainda há muitas pessoas, algumas em cargos poderosos, que defendem abertamente a ditadura militar, chamando o Golpe de 64 de “gloriosa revolução”, e clamando pelo retorno dos militares toda vez que vem à tona um novo escândalo de corrupção – não se dão conta de que o único motivo pelo qual há mais denúncias de corrupção hoje é porque não há perseguição aos opositores do governo.

Mas, pior que isso, é uma grande massa de brasileiros deseducados, desinformados, despolitizados e alienados que ainda enxergam manifestantes como “vagabundos”, “maconheiros” e “baderneiros” que deveriam ir trabalhar ao invés de protestar – isso são resquícios de uma mentalidade cultivada na ditadura militar que eliminou o pensamento crítico nas instituições de ensino e procurou isolar aqueles que lutavam por democracia rotulando-os como terroristas e vagabundos. Para muitos, os slogans criados na ditadura “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil” ainda valem, só que agora ao invés de serem exiladas no exterior as pessoas são convidadas a se auto-exilarem no trabalho e na alienação.

Entretanto, ameaças à nossa liberdade não vêm apenas do Exército e simpatizantes da Ditadura Militar. Não é incomum vermos em países que se dizem democráticos os caprichos e vontades de empresas, corporações e governo civil sobreporem-se à liberdade de expressão e aos direitos humanos. Em um recente caso, uma pessoa foi proibida pela Justiça de São Paulo de manifestar sua opinião e de protestar contra um empreendimento privado. Nos Estados Unidos o Patriot Act, uma lei criada para proteger o país de ameaças terroristas, permite que as agências do governo monitorem e-mails, conversas telefônicas e transações bancárias de “suspeitos” sem mandato judicial, que se prenda por anos indivíduos acusados de terrorismo sem que eles tenham direito a um julgamento. No Brasil, o PL 728/2011, conhecido como o AI-5 da Copa é vago o suficiente para que protestos ou manifestações sejam enquadrados como terrorismo, com pena de 15 a 30 anos de prisão. Recentemente, o ficou-se sabendo que o governo dos Estados Unidos tem livre acesso aos dados de usuários contidos nos servidores do Facebook, Google e Apple desde 2007. O cerco à liberdade vai se fechando enquanto a vigilância vai aumentando.

15100538

Operação mobilizou mais de 200 policiais para prender 27 manifestantes pacíficos que foram acusados de desacato, resistência e desobediência.

Um caso bem recente de infiltração, monitoramento e criminalização de um movimento pacífico, que terminou com a prisão e indiciamento dos manifestantes aconteceu numa ação conjunta entre a Prefeitura de Porto Alegre e a Brigada Militar para garantir a continuidade das obras de duplicação de uma avenida, realizadas pela Toniolo Busnello, empreiteira que financiou a campanha do prefeito José Fortunati. Os manifestantes foram acusados de desacato, desobediência e resistência, acusações totalmente arbitrárias, principalmente porque há menos de 12 horas os manifestantes haviam sido avisados pela Justiça que tinham 48 horas para sair do local. Isto mostra que mesmo que os manifestantes não tenham a intenção de descumprir qualquer lei, não significa que não devam temer a perseguição pelo Estado, mesmo quando vivemos em um chamado “Estado democrático de direito”.

Em uma sociedade ideal, onde as instituições públicas fossem amplamente confiáveis e agissem em nome da liberdade e do bem comum, tal monitoramento poderia realmente servir para proteger a sociedade de fanáticos fundamentalistas ou de grupos que incitam ao ódio e à violência. Mas estamos muito distantes de uma realidade onde possamos ter uma  confiança cega nestas instituições para permitir que vigiem o cidadão e criem fichas e relatórios sobre manifestantes que buscam o bem comum. Porém, mesmo que hoje elas fossem criadas com esses objetivos e pudéssemos confiar nelas, nada nos garantiria que amanhã elas não seriam influenciadas por grupos poderosos, teriam sua missão subvertida e se transformariam em instrumentos de repressão que se aproveitaria de todos os dados por ela coletados. Quando a informação e o poder são tão centralizados, basta que os interesses de quem detém o poder sejam afetados para corrermos o risco de sermos perseguidos.

Resulta que, na prática, qualquer acúmulo excessivo de informações sobre os cidadãos representa um potencial risco às nossas liberdades, e ao colocarmos informações pessoais e de movimentos sociais em redes como o Facebook estamos colaborando voluntariamente com a coleta de dados e com o fichamento e monitoramento de ativistas e pessoas politicamente ativas facilitando a identificação e perseguição destes indivíduos em um futuro próximo ou distante.

th

  1. Após protestos coordenados Abin eleva risco para grandes eventos – http://oglobo.globo.com/pais/apos-protestos-coordenados-abin-eleva-risco-para-grandes-eventos-8627202#ixzz2VeMvl3Mt
  2. EUA espionam usuários do Google, Facebook e Yahoo, diz jornal – http://www.brasildefato.com.br/node/13171
  3. Análise da Lei Azeredo – http://artigo19.org/?p=1139
  4. NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others – http://www.guardian.co.uk/world/2013/jun/06/us-tech-giants-nsa-data
  5. Promotor reclama de protestos em SP e diz ter saudade da época da “borrachada nas costas” – http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/promotor-reclama-de-protestos-em-sp-e-diz-ter-saudade-da-epoca-da-borrachada-nas-costas/?cHash=95aa326e9c2fe1d0cb63c91768c4bb3a
  6. RS: Operação prende manifestantes e começa a derrubar árvores no Gasômetro – http://www.brasildefato.com.br/node/13063
  7. Precisamos falar sobre o Facebook – http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2013/01/516082.shtml