Olhando a vida passar.

O curioso sobre um espetáculo é como ele imobiliza os espectadores: assim como a imagem, ele faz sua atenção, seus valores e suas vidas girar ao redor de algo que não eles mesmos. Ele os mantém ocupados sem mantê-los ativos, faz eles se sentirem envolvidos sem dar-lhes o controle. Dá pra imaginar uma série de exemplos disto: programas de televisão, filmes de ação, revistas de fofoca, esporte profissional, “democracia” representativa, a Igreja Católica.

O espetáculo isola as pessoas que nele prestam atenção. Muitos de nós sabemos mais sobre os personagens fictícios de seriados televisivos do que  sobre a vida e os amores de nossos vizinhos – pois mesmo quando falamos com eles, é sobre programas de TV, noticiários e o clima; ou seja, as mesmas experiências e informações que temos em comum como espectadores servem para nos separar como indivíduos. É a mesma coisa num grande jogo de futebol: toda pessoa que assiste da arquibancada é um ninguém, não importa quem ela seja. Eles podem sentar-se lado a lado, mas os olhos estão focados no campo. Se eles conversam, quase nunca é sobre eles, mas sobre o jogo que está sendo jogado à sua frente.

E apesar de os fãs de futebol não poderem participar dos eventos do jogo ao qual estão assistindo, ou exercer qualquer influência real sobre ele, eles dão extrema importância a esses eventos e associam suas necessidades e desejos com o resultado do jogo de um modo muito incomum. Em vez de concentrar sua atenção em coisas que sejam relevantes aos seus desejos, eles reconstroem os seus desejos para fazer parte do que eles estão assistindo. Até mesmo sua linguagemf_notv2005062m_e1e1b7b confunde as conquistas do time com o qual se identificam com suas próprias ações: “fizemos um gol!”, “ganhamos!” gritam os torcedores de seus assentos e sofás.

Isso entra em extremo contraste com o jeito no qual as pessoas falam de coisas que acontecem em suas próprias cidades e comunidades. “Eles estão construindo uma nova auto-estrada” nós dizemos sobre as mudanças em nossa vizinhança. “Qual vai ser a próxima coisa que eles vão criar?” dizemos sobre os últimos avanços da tecnologia. Nossa linguagem revela que nós nos vemos como espectadores em nossas sociedades. Mas não são “Eles”, os misteriosos Outros, que fazem o mundo ser o que é  – somos nós, a humanidade. Nenhum pequeno grupo de cientistas, políticos e urbanistas pode ter feito todo o trabalho, criação e organização que foram necessários para transformar esse planeta; foi preciso e ainda é todos nós, trabalhando juntos, para fazê-lo. Somos nós que fazemos, diariamente. E ainda assim muitos de nós ainda pensam que nós podemos ter mais controle sobre jogos de futebol do que podemos ter sobre nossas cidades, nossos trabalhos, ou mesmo nossas vidas.

Nós podemos ter mais sucesso em nossa busca pela felicidade se tentarmos realmente participar. Ao invés de apenas aceitar o papel de espectadores passivos dos esportes, da sociedade e da vida, cabe a cada um de nós descobrir como ter um papel ativo e significante na criação do mundo ao nosso redor e dentro de nós. Talvez um dia nós possamos construir uma nova sociedade na qual todos nós possamos estar envolvidos nas decisões que afetam nossas vidas; só então poderemos realmente escolher nossos destinos.

Texto retirado do livro: Days of War, Nights of Love, da CrimethInc.

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4 Comentários on “Olhando a vida passar.”

  1. leoberaldo disse:

    Parece ser bem bacana o livro, você comprou direto do site deles?

  2. Marcelo disse:

    Um amigo que comprou direto do “site” me emprestou. Eu encomendei ele e mais outros essa semana para deixar na biblioteca do Bonobo (www.cafebonobo.com.br).

  3. Peter disse:

    Além do livro – que me parece muito interessante – o seu post me lembra de frases como: “Estou no trânsito”. Parece como: “Estou num rio”, como isso fosse algo que não teria nada a ver com a pessoa. Uma “catástrofe natural”. Um motorista reclamando: “Tantos carros na rua!” Pois é. Está dirigindo um deles. Mas, não entende que ele está participando.
    Bom, creio que isso tenha a ver um pouco com aquilo que você colocou acima.

  4. Rafa Conter disse:

    Sou suspeito para falar que esse texto é muito bom, assim como qualquer texto em Days of War, Nights of Love. Vale a pena pôr as mãos em Expect Resistance, da mesma editora.


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