O pedestre encurralado

O pedestre no Brasil é um pária, ele não tem lugar. É constantemente ameaçado de morte e muitas vezes nem se dá conta disso. Quando tirei carteira de habilitação me ensinaram que o carro é uma arma, porém acho que fui só eu mais meia dúzia de pessoas que aprendemos a lição. Poucos percebem, mas andar de carro é uma agressão constante a todos os demais. Quando um motorista não pára para um pedestre que atravessa rua ele automaticamente está dizendo “saia da frente ou eu lhe causarei danos físicos, talvez até te mate”.

Nas últimas décadas, o aumento exponencial do número de carros, aliado a más políticas de transporte público e o conseqüente alargamento de ruas e avenidas tem deixado cada vez menos segurança e espaço para se caminhar, viver e conviver na cidade. O pedestre fica confinado a calçadas cada vez mais estreitas, e nem mesmo lá está seguro.

E assim a vida de quem anda a pé fica cada vez mais insuportável, fazendo com que os pedestres desejem ter carros e passem a serem opressores ao invés de oprimidos.

Em Porto Alegre, onde vivo, e acredito que também na maioria das metrópoles brasileiras, as vias públicas privilegiam cada vez mais os automóveis em detrimento do transeunte. Isso aliado ao fato de que alguém teve a idéia de jerico de tirar a atribuição de fiscalizar o trânsito da Brigada Militar e criar mais uma polícia: os fiscais de trânsito, que nem ao menos são respeitados. Graças a essa idéia, não há mais policiais na ruas, aumentando a insegurança, e não há fiscalização no trânsito, já que a EPTC (Empresa Pública de Transporte Coletivo) não existe.

Assim todo dia vemos um número crescente de motoristas ultrapassando o sinal vermelho, falando ao celular dirigindo, tentando atropelar pedestres que ousam atravessar a rua e motoqueiros atalhando por cima das calçadas.

Aguardo com ansiedade o dia em que vão destruir minha moradia para construir um viaduto, um estacionamento ou alargar a via e terei que ir morar na calçada, rezando para não ser atropelado por um motoboy.

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16 Comentários on “O pedestre encurralado”

  1. Urubu Antigo disse:

    Realmente, o Porco Alegre tem uma paixão animalesca por viadutos, estacionamentos de vários andares e ruas asfaltadas e feias. Uma vez que destruímos tudo o que nos caracterizava, precisamos erguer essas porcarias. A cidade ideal, na perspectiva desse tipo de boçalidade, seria aquela em que as pessoas ficassem encubadas numa cápsula, mandando seus carros irem à aula, ao supermercado, ao xópin, à auto-escola.

  2. anamargarites disse:

    Aqui em Pelotas o problema chega a ser ridículo. Atingimos a média de 1 carro para cada 3 cidadãos – situação que não faz o menor sentido, uma vez que a cidade é pequena e a maioria dos trajetos que os motoristas fazem diariamente poderiam ser feitos em menos de 20 minutos de caminhada. E andar a pé no centro virou uma aventura. 😦

  3. Marcelo disse:

    É triste. É mais ou menos como em Bagé, as pessoas usam carro às vezes para andar duas ou três quadras e depois ficam pagando academia para andar na esteira, ou então ficam caminhando em círculos ao redor da Praça da Estação.

    Quem não anda de carro, acaba sendo mal visto, carro é um símbolo de status. Tem que ser muito inseguro de si para gastar R$40 mil num símbolo de status.

  4. maickcosta disse:

    Concordo com o que você colocou aqui Marcelo, realmente a estrutura de nossas cidades não se preocupa com os pedestres que, como aprendemos nas escolas de formação de condutores, também fazem parte do trânsito. Mas devemos destacar uma coisa: A falta de consciência também, por parte de alguns pedestres. Quantas notícias já lemos de pedestres que foram atropelados atravessando a avenida bem embaixo de uma passarela?? Aqui em Belém já vi isso acontecer inúmeras vezes e até vindo a falecer o motorista que não espera que embaixo de uma passarela venha um pedestre atravessar a avenida. No trânsito, todos os elementos devem se respeitar: motoristas de carros de passeio, taxi, ônibus, ciclistas, pedestres, efim….todos….só assim o trânsito pode ser humanizado!

  5. Urubu Antigo disse:

    O problema é o mesmo. Tem carro demais no mundo. O automóvel imbeciliza o mundo, além de beber o sangue de satanás. É bem ridículo o jeito como o incosnciente coletivo toma por axioma que é preciso comprar mais carros, carros são sinais de progresso, de status, de primeiro-mundismo. Ontem mesmo saíram vários artigos alardeando que o Brasil vai entrar em recessão, e por que? Porque as pessoas estão comprando menos carros. Como se isso fosse uma coisa ruim! O mundo já está entupido dessas porcarias, e ainda querem que as pessoas sigam comprando?

    Quando eu era criança pequena lá em Bagé, ia a pé a todos os lugares. Vai ver inconscientemente soubesse que os carros são a cria de Melkor. Não quis tirar carteira, e hoje estou tirando, aos 28 anos, por obrigação – pela eventualidade de um dia ter que levar minha mulher grávida correndo ao hospital, por exemplo. Mas não pretendo dirigir mais do que uma vez por mês, quando for estritamente necessário. Em Bagé, hoje, há uma situação ridícula – uma cidade de 200 mil habitantes com engarrafamento e calçadas entupidas de carros estacionados.

    A obsessão das pessoas por conforto semidivino e por não fazer absolutamente nenhum esforço para nada deveria atrair a vingança de Júpiter. Precisamos ser fulminados por uns raios.

  6. Marcelo disse:

    Então, maickcosta, sei como é essa de pedestres atravessarem fora da passarela. Mas isso é um sintoma de um planejamento urbano que deixa o pedestre em segundo plano.

    Ninguém (exceto alguns adolescentes cheios de testosterona e pouco propósito na vida) atravessaria fora do lugar adequado se essas travessias fossem práticas e bem sinalizadas. A absoluta maioria das passarelas apresenta um ou todos os problemas abaixo:
    – Escadas, que impedem o acesso de cadeirantes e dificultam o acesso de idosos;
    – Caminhos bem mais longos, que desincentivam seu uso;
    – Má sinalização, muitas vezes não se sabe onde há uma passarela.

  7. Peter disse:

    Parabéns pelo post!
    Gostaria de traduzí-lo e publicar no meu próprio blog.
    Tudo bem pra você?

  8. Peter disse:

    Com o link do original. é claro …

  9. Marcelo disse:

    Mas claro, rapaz. A informação é livre.

  10. Sérgio disse:

    Além da ameaça física, os carros constantemente afetam a qualidade de vida das pessoas com ruído e gases. A maioria está tão acostumada que não percebe.

  11. maickcosta disse:

    também concordo que algumas passarelas não dão a mínima condição digna para as pessoas atravessarem. Mas o caso que aconteceu aqui fica de fora de todas as características que vc descreveu, não era jovem, não era idoso e nem portador de deficiência física….simplesmente atravessou a avenida mais movimentada da cidade bem embaixo da passarela….

  12. Bia disse:

    Parabéns,
    você traduziu em palavras o que vivenciei esta semana na rua da minha casa:
    um ser, dito humano, com sua musiquinha ligada no volume máximo, falando ao celular e sorrindo (quando deveria chorar), passou no farol vermelho a uma velocidade máxima e quase me atropelou.
    Quando as pessoas viajam para a Europa e voltam elogiando o maravilhoso e organizado trânsito europeu, elas poderiam aproveitar e aprender alguma coisa com isso.
    Parabéns mais uma vez pelo ótimo texto!

  13. Vanessa disse:

    O trânsito desestimula o prazer de andar a pé. Sou pedestre muito por opção, acho dirigir estressante e cansativo (fora que se precisa dividir espaço com péssimos e irritados motoristas). Mas sinto cada vez menos incentivo ao caminhar. A Carlos Gomes por exemplo, é um horror de asfalto e calçadas estreitas, como faltaste no post. Chega a dar um desânimo de caminhar por ali, parece que a avenida foi reformada somente para as pessoas circularem de carro.

  14. Daniel disse:

    Realmente faltam investimentos em infraestrutura de segurança para o pedestre, com tantas calçadas esburacadas e sem rebaixamentos para passagem de cadeiras de rodas, mas em alguns locais seria interessante investir em passarelas. Há vários trechos de avenidas como a Ipiranga e até a relativamente estreita Independência onde uma passarela (ou até um túnel) poderia ser implementado.


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