Não há justificativa.

É inadmissível que em pleno século XXI, numa sociedade que se considera tão civilizada, evoluída e esclarecida, ainda seja perfeitamente comum e legal infligir sofrimento a alguém pelos motivos mais supérfluos. O nosso gosto pessoal não pode estar acima do direito dos outros de levar uma vida plena e livre de sofrimento. Pois é isso que fazemos quando decidimos comer carne: condenamos um animal à uma vidacarne_assada.jpg curta e sofrida para que possamos desfrutar de um gostoso bife à cavalo.

Talvez alguém diga: “mas nós precisamos da carne para obter proteína, ferro e outros nutrientes”. Engano. A própria American Dietetic Association (ADA) afirma que é perfeitamente possível ter uma vida saudável com uma dieta vegetariana. E uma vez que temos a possibilidade de levar uma vida saudável sem consumir produtos de origem animal, é moralmente injustificável o sofrimento que causamos ao consumi-los.

Foi-se o tempo em que caçávamos animais selvagens para não morrer de fome. Hoje em dia as opções de comida abundam nos supermercados e a carne é apenas mais uma delas, e se a comemos, é por pura preferência pessoal. A05.jpg ciência também contribuiu para que entendêssemos melhor os animais, percebemos que somos apenas mais uma espécie, entre muitas, que sofrem, sentem dor, têm medo de morrer, ficam tristes ou felizes.

Ainda assim, muita gente busca justificar o hábito de comer carne dizendo que faz parte da nossa cultura. O simples fato de algo fazer parte da nossa cultura não quer dizer que seja certo ou errado e que deva ser perpetuado eternamente. Várias coisas ruins já fizeram (e ainda fazem) parte da nossa cultura e aos poucos nós vamos percebendo o erro e corrigindo. Por exemplo, na época de Jesus, apedrejar s340x255.jpeg“criminosos” ou “infiéis” até a morte em praça pública era uma tradição. Fazia parte da cultura (e infelizmente ainda faz parte de algumas).

Um outro exemplo, que ainda acontece atualmente, é a mutilação genital feminina. Em alguns países da África, acredita-se que os órgãos genitais femininos são “impuros” e para que haja uma “purificação” o clitóris é removido ou os lábios vaginais são costurados. Isso faz parte da cultura certos povos africanos, isso justifica sua perpetuação? Devemos admirar essas culturas?

O grupo português de defesa dos direitos animais, Acção Animal, criou um vídeo que ilustra bem o fato de que existem certas tradições que devem ser extintas:

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27 Comentários on “Não há justificativa.”

  1. Leonardo disse:

    Extremismo da tua parte. Comer animais não é uma questão cultural como as que tu citou, é algo biológico, muito mais antigo do que cagar sentado.

  2. Marcelo disse:

    Caro Leonardo,
    Biologicamente, o homem é onívoro. Isso quer dizer que ele pode digerir tanto animais como vegetais, de acordo com a disponibilidade desses alimentos no seu ambiente.

    Biologicamente, não temos garras para caçar ou dentes para rasgar a carne de animais de grande porte, como vacas, porcos e ovelhas.

    Se formos nos comparar, biologicamente, aos chimpanzés, dos quais o nosso genoma só se diferencia em 2%, veremos que como eles, nosso corpo é feito para coletar e consumir frutas, nozes e pequenos animais, como insetos.

    Sem nossa cultura, que desenvolveu armas na pré-história e pistolas de projétil captivos na modernidade, não seríamos capazes de matar uma vaca para comer.

  3. Leonardo disse:

    Para que servem os dentes carnívoros? Assim como os cães mudaram após muito tempo de domesticação, o homem adquiriu características devido a facilidade criada pela tecnologia ou sua capacidade de criar armas.

    Se não comermos vacas, ovelhas e porcos o que faremos com eles? Zoológicos?

  4. Marcelo disse:

    Leonardo,
    Os dentes caninos (e não carnívoros), servem para rasgar o alimento. Os caninos nos animais carnívoros servem para agarrar e não deixar a presa escapar, por isso que nestes animais os caninos são mais longos que os outros dentes. Mas mesmo a presença de caninos alongados não quer dizer que o animal seja naturalmente carnívoro. Um bom exemplo disso é o gorila que possui caninos muito maiores e pontiagudos que os nossos e é um animal 100% herbívoro.

    Aprecio a sua preocupação com o destino de vacas, ovelhas e porcos caso o mundo se torne 100% vegetariano. Mas mesmo que um dia isso aconteça, o que é altamente improvável, isso não vai ser de uma hora para outra, mas sim aos poucos, de forma gradativa. Conforme for diminuindo a demanda por carne, a lucratividade dos produtores vai diminuir e eles vão as poucos migrando para outros setores, como agricultura.

    Essa superpopulação de vacas, porcos e frangos é causada pelo homem que induz a reprodução desses animais. O número de animais criados para o abate vem aumentando constantemente. No Brasil, já são mais cabeças de gado do que pessoas. E isso também tem um efeito ambiental devastador.

    A FAO, órgão da ONU para agricultura e alimentação, já avisou desses impactos. A pecuária, além de ineficiente (produz muito menos alimento para a mesma quantidade de recursos naturais consumidos), é o principal responsável pelo efeito estufa, gerando mais gases nocivos que o transporte. E isso só vai piorar, segundo eles, a produção mundial de carne deve ir de 229 milhões de toneladas em 2001 para 465 em 2050.

  5. Um cético pirrônico disse:

    Eu não acho absurda a hipótese de que vegetais possam de alguma forma sofrer. A ciência não é capaz de provar que sim nem que não. Como bom cético, eu não faço juízo sobre algo que não é confirmável nem desconfirmável. Infelizmente, é plausível que uma vida só possa se manter pela destruição de outras vidas. Certamente prefiro comer animais que não tenham sido torturados antes de morrer, e sou contra testes feitos em animais. Mas do ponto de vista filosófico me parece que animais e vegetais tenham o mesmo direito básico de não serem comidos. Um animal provavelmente tem mais consciencia de sua existencia que uma planta, mas por outro lado um ser humano também tem mais consciencia de sua existencia que um animal. A mesma lógica que coloca animais ontologicamente acima de plantas colocaria seres humanos acima de animais. É um nó górdio.
    Em algumas aldeias da Jordânia, animais só podem ser abatidos quando estão sedados e, portanto, não sofrem ao morrer. Se a questão é especificamente evitar o sofrimento alheio, me parece que comer um bife a cavalo feito com a carne de um animal que morreu sedado resolva o problema. Mas se a questão é a preeminência de animais sobre plantas, recaímos no nó górdio de que falei acima.
    Infelizmente, a natureza é cruel e a vida só se mantém pela destruição de outras vidas. Reduzir ao máximo o sofrimento inflingido nesse processo me parece razoável. Supor que ao parar de comer bife eliminaremos a injustiça essencial do ato de comer, por outro lado, me parece ingênuo.

  6. Marcelo disse:

    Existe uma série hipóteses que podemos levantar, que a ciência não tem como provar nem como desprovar. Por exemplo, posso dizer que a terra é uma partícula de pó no nariz de um gigante enorme chamado Crebus Defucio. Mas, é altamente improvável.

    E sob o ponto de vista evolutivo, além de improvável, não faria sentido as plantas serem capazes de sentir dor física. Uma vez que a dor é um alerta para perigo e risco de vida, nao teria porque uma planta sentir dor e não ser capaz de fugir ou de se defender. E mesmo se acreditas na Criação ao invés da evolução, seria preciso um deus muito sádico para criar plantas que sentem dor.

    Mas mesmo que as plantas sentissemm dor, ao deixar de comer animais e se alimentar exclusivamente de plantas, você estaria reduzindo o sofrimento de milhares de plantas e centenas de animais. Por que? Porque para criar um porco, digamos, para nos servir de comida temos que alimentá-lo, principalmente com grãos, até o dia do abate. E um animal se formos considerá-lo como uma “fábrica de comida” é altamente ineficiente, pois ele consome muito mais comida do que gera. Se fossemos nos alimentar diretamente com os grãos que são dados aos animais de abate, daria para alimentar muito mais gente do que a carne dos animais alimentaria.

    Então se você se preocupa com o sofrimento de animais e com o improvável sofrimento das plantas, faz todo o sentido do mundo deixar de comer carne.

    Concordo que a vida animal só se mantém pela destruição de outras vidas, mas podemos pelo menos reduzir o número de vidas que destruímos e praticamente anular o sofrimento que causamos.

  7. Um cético pirrônico disse:

    Em resumo, tu concordas comigo quando digo que não há maneira de saber se uma planta tem algum tipo, ainda que mínimo, de consciencia. Só para constar, a ciencia nunca explicou sequer o fenomeno da consciencia, de modo que é muito temerário decidir quem ou o que tem alguma consciencia e quem nao tem nenhuma. Algumas hipoteses afirmam que a consciencia da vida não surge simplesmente, mas já existe de forma embrionária em todas as espécies de vida. Desconsiderar tudo isso não é uma atitude propriamente cética.

    Aliás, a hipótese de um deus sádico não me parece absurda. A própria vida animal está cheia de sofrimentos que não podem ser evitados. Se a natureza conferisse consciencia somente a quem tem a sorte de disfruta-la alegremente, a vida seria uma beleza. Quanto ao universo ter sido criado ou ter surgido no big bang ou ser apenas uma ilusão forjada por um deus sádico — enfim, tudo isso é incomprovável e não-descomprovável, logo pertence à esfera da fé, território de religiosos e ateus, mas não dos céticos.

    Em relação aos animais comerem plantas, estás te referindo, de novo, à criação extensiva de animais de corte, enquanto eu estou falando de comer animais de uma forma geral, do ponto de vista filosófico. Eu posso pegar uma espingarda, ir ao bosque, dar um tiro num porco selvagem e come-lo, mesmo não tendo uma criação de porcos na minha casa. E pelo que entendo, tu condenas qualquer instância em que um ser humano come um animal, e não simplesmente a criação extensiva de animais para abate. Também posso simplesmente ir ao mar e pescar um linguado. Eu não fiz criação de linguado, e o linguado existiria, comendo plancton e algas, mesmo que eu não comesse peixe.

  8. Um cético pirrônico disse:

    Continuando.
    Do ponto de vista cético, existem hipóteses plausíveis e comprováveis, plausíveis e incomprováveis, e implausíveis. Plausíveis são aquelas hipóteses que não contrariam outras hipóteses previamente confirmadas pelos instrumentos cognitivos que compartilhamos. Implausíveis são as hipóteses que contrariam outras hipóteses comprovadas. Por exemplo, a idéia de que a terra é uma partícula no narzi de um gigante chamado Crebus Defucio nos parece absurda, não por simples acaso ou “porque sim”, mas porque ela contraria uma série de pressupostos subliminares, originados de hipóteses confirmadas dentro de determinada estrutura lógica que aceitamos. Em primeiro lugar, até onde foi possível averiguar, a Terra está na Via Láctea, que por sua vez gira no vácuo, cercada por outras galáxias. Até hoje os cosmólogos não conseguiram identificar um limite a esse conjunto de vácuo e galáxias, o universo. Se um dia for encontrado um limite, e se esse limite for semelhante a uma mucosa nasal, então a hipótese de que estejamos todos dentro do nariz de um gigante torna-se plausível, embora inconfirmável. Confirmável só seria no momento em que saíssemos da dita narina e contemplássemos o gigante.

    Já a hipótese de que as plantas tenham algum tipo de consciencia é imediatamente plausível e inconfirmável. Plausível porque, até onde sabemos, toda vida tende a se manter. Plantas crescem mais onde há sol, por exemplo, e foi averiguado em diversas instâncias que elas reagem de forma diferente a sons diferentes. Por exemplo, algumas plantas crescem melhor e mais fortes quando cercadas por sons agudos, como o grito de animais ou um rock pesado. Não sabemos se isso ocorre porque as plantas tenham algum tipo de consciencia, mas a hipótese é plausível. Além disso, a ciencia e a metafisica nunca chegaram a compreender, ou sequer afirmaram compreender, plenamente a consciencia, de modo que é impossível determinar onde ela está e não está. Ou seja, isso que chamamos consciencia pode comportar modalidades desconhecidas ou incompreensíveis dentro de nossos conhecimentos e pressupostos. Antes de tudo, é desaconselhável tirar conclusões definitivas a respeito e temas tão rarefeitos.

  9. Um cético pirrônico disse:

    A propósito, a hipótese de Crebus Defuncio é semelhante à famosa frase de Bertrand Russell, de que a existencia de algum tipo de deus, sádico ou generoso, não é comprovável nem descomprovável na mesma medida em que não o é a hipótese de que haja uma xícara flutuando entre Marte e Vênus. Novamente, essa hipótese é implausível por uma série de raciocínios e pressupostos subliminares, e não simplesmente “porque sim”. Em primeiro lugar, nosso conhecimento empírico nos sugere que xícaras não surgem na natureza, sem a interferência humana. As mesmas leis da física que explicam a existência de corpos celestes como Marte e Vênus não permitem que uma xícara surja no espaço, simplesmente. Para admitir a plausibilidade da xícara flutuante, teríamos de admitir que essa xícara foi produzida por seres humanos ou algum outro tipo de criatura inteligente. Para estar flutuando no espaço, a xícara teria de ter sido levada até lá, de alguma forma. Quando houver viagens espaciais regulares, certamente surgirá uma quantidade substancial de lixo solto no espaço, lixo produzido por seres humanos. Nesse contexto, será plausível a existência de uma xícara no espaço, mas mesmo assim será implausível que ela fique flutuando especificamente entre Marte e Vênus, pois certos pressupostos igualmente compartilhados nos sugerem que a xícara seria atraída por um dos planetas, entraria em sua órbita e se desintegraria, ou então ficaria vagando solta, livre de campos gravitacionais, ou então giraria na órbita de um ou outro planeta. Por isso, no momento, a hipótese é implausível, a menos que admitamos que outras espécies inteligentes produtoras de xícaras tenham passado por esse sistema solar e largado algum lixo. Então teríamos de discutir a hipótese dessas viagens extraterrenas etc.

    Enfim, escrevo isso para clarificar minha opinião de que a consciencia das plantas não é confirmável nem desconfirmável. Do ponto de vista evolutivo, a dor física seria implausível, mas de novo, a dor física é uma das manifestações que nós conhecemos da consciencia, podendo haver várias outras que desconhecemos. Sabemos que existem formas de sofrimento, próprios à consciencia, que não envolvem dor física, e isso por si só torna não-descomprovável a hipótese de que haja outras modalidades de sofrimento que no atual momento não podemos definir, explicar ou detectar.

  10. Marcelo disse:

    Não, não condeno qualquer instância em que um ser humano come um animal. Estou me referindo à nossa situação atual, nossa sociedade, em que condenamos animais à uma vida de sofrimento pelo puro prazer de desfrutarmos de sua carne. Se os animais que nós comêssemos vivessem em liberdade num meio selvagem, seria muito menos condenável do que o que fazemos em nossa sociedade atual. E todo mundo caçar sua própria comida em áreas selvagens é impraticável, em breve todos animais estariam extintos. Portanto a saída mais sensata é sim, deixar de comer carne.

    Tu insistes em falar em consciência das plantas. Não estou falando de consciência, mas em sentir dor. Até onde sabemos nem toda consciência sente dor e a dor é uma função do sistema nervoso. Por exemplo, alguém que possua um problema no sistema nervoso, como uma lesão na coluna, pode deixar de sentir dor em alguma parte do seu corpo, no entanto ela ainda possui consciência. Ou seja, de acordo com nosso conhecimento empírico, sentir dor está relacionado com o sistema nervoso.

    E ainda, animais possuem interesses que os vegetais não possuem como liberdade e convivência social. Não podemos dizer que um pé de alface plantado no meio de uma lavoura está sendo privado de liberdade, pois ele não iria a lugar algum de qualquer forma. Enquanto isso, aprisionamos frangos em gaiolas, dentro das quais eles não conseguem ao menos abrir suas asas. Eles ainda têm seus bicos cortados, para que não cometam canibalismo, conseqüência do estresse a que são submetidos. O que é mais cruel?

    Concluindo, é bem improvável que plantas sintam dor e por outro lado, é um fato comprovado que os animais que possuem sistema nervoso desenvolvido sentem dor. Da mesma forma, ao comprar carne de um animal que foi criado para o abate, estamos condenando à morte não apenas animais, mas todos os vegetais que lhes servirão de alimento.

    Logo, é mais sensato para um cidadão de nossa sociedade e que busca um comportamento ético e evitar o sofrimento de outros seres vivos ter uma dieta à base de carnes ou uma dieta vegetariana?

  11. Cético pirrônico disse:

    O mais ético é fazer aquilo em que se acredita, logo se acreditas que as plantas não sofrem de maneira alguma, estás sendo perfeitamente ético em tua posição. No entanto, como não estou convencido disso, eu seria simplesmente hipócrita concordando com tua afirmativa de que sendo vegetariano eu praticamente eliminaria o sofrimento do ato de se alimentar. E, de novo, a dor física não é o único tipo de sofrimento possível, é apenas uma instância do sofrimento que nós, humanos, podemos compreender. Assim como dizer que os animais não tem nenhum tipo de consciencia valorizável é especicismo, não sei porque tirar essas mesma conclusão, sem evidencias conclusivas, a respeito das plantas, não deva ser considerado “reinismo”, aludindo aos reinos vegetal e animal.
    De resto, pelo que entendi condenas a civilização consumista industrial de hoje, e nisso concordo plenamente contigo, e não condenas uma sociedade de caçadores que mate animais que vivem na natureza. É isso? Quero dizer, se eu caçar o animal que vou comer, estarei sendo ético?

  12. Marcelo disse:

    Deixa eu ver, então. Entre as duas opções abaixo:
    a) tomar uma atitude que com certeza causa dor física e gera medo e sofrimento em animais, além de causar a morte de um grande número de vegetais e maior impacto ambiental;
    b) tomar uma atitude que procure evitar o sofrimento de animais e cause a morte de um número reduzido de vegetais, causando também menor impacto ambiental;
    Qual das duas opções é a que leva mais em consideração tanto animais, como vegetais?

    É por isso que digo que não há justificativa moral, para alguém que busca evitar o sofrimento e morte de outros seres e que vive na nossa sociedade atual, industrial e consumista.

    Sem dúvida a situação, digamos, dos povos inuítas é bem diferente. O sofrimento que eles causam aos animais que comem é muito menor e é necessário para sua sobrevivência, pois é um dos raros alimentos que eles possuem à sua disposição.

    Caçar pode ser ético ou não de acordo com a sua necessidade. Se eu busco evitar o sofrimento de outros seres e eu tenho a opção, é preferível se alimentar de plantas, as quais não temos prova alguma de que sofrem ou possuem algum tipo de consciência, do que se alimentar de animais que temos certeza de que sofrem. Isso é buscar evitar o sofrimento.

    Agora se a tua sobrevivência depende de caçar/pescar, como nos povos inuítas, eles não tem opção, logo não há certo/errado, há apenas a busca pela sobrevivência que é mais forte do que qualquer racionalidade.

  13. Arnoud disse:

    O debate segue deveras interessante, mas me parece que não conduzirá ao objetivo dos debatedores, qual seja, levar a população ocidental industrial a comer menos carne.
    Proponho uma outra abordagem que pode levar ao objetivo desejado: Mostrar que a criação extensiva de animais é um grande problema ambiental e uma prática muitíssimo ineficiente em termos energéticos.
    De qq forma, o consumo de carne sempre existirá, mesmo que seja desnecessário e inconveniente.
    O meu vegetarianismo vem destes raciocínios e não traz junto uma pregação em favor dele.
    Abraços verdes!

  14. Fabricio disse:

    Oi Marcelo.
    Cheguei no teu blog por vias acidentais, mas até acho que nos conhecemos – embora eu não esteja certo disto.

    A minha questão – e é apenas isto, uma questão – é a seguinte: até que ponto isto não é um perfeccionismo moral?

    Explico:
    Temos como ter em mãos todas as variáveis de nossas opções, no nosso dia a dia? Até que ponto não implica em uma idéia de perfeccionismo esta redução utilitarista por critérios de benefício? Tipo “causar menos dor”? Não sei até que ponto, uma argumentação deste tipo levada até as últimas consequências não implicaria em simplesmente não poder se levantar.

    Pois se sei que animais sofrem na produção de carne em corte industrial, sei também que seres humanos sofrem na colheita de vegetais – ou não existem sub-empregados em colheitas? Ou todos que trabalham nestas condições são bem pagos e não são explorados? Precisamos, sim, ignorar fatores que podem ser chamados de “morais” para continuar vivendo – ainda que eu discuta chamar estes fatores de “morais”. Creio que este “moral” que colocamos ali é apenas uma reação intestinal, um pouco como uma vaia em um campo de futebol. Ou ignoramos estes fatores ou, coerentemente, vamos ter que abrir mão de várias coisas – inclusive usar computadores, explorar a internet. A vida só se alimenta de outras vidas. A gente explora e sai da “ordem moral” – em termos utilitários – o tempo todo.

    Mas insisto em outros pontos. É caro ser vegetariano. Eu sei porque tenho uma dieta eminentemente vegetariana, e para me manter com ela preciso gastar mais comendo fora – especialmente se eu desejar ser coerente e comer em lugares que não servem carne. Neste sentido, como posso esperar que outros também tenham esta atitude, quando eles não podem fazer esta opção? Mais uma vez, além de ser perfeccionista da minha parte, seria uma exigência mesquinha – e a aproximação que o pessoal faz da escravidão animal com a escravidão humana me soa paradoxal e rápida. Para ser escravizado é preciso, primeiro, ser livre. Um animal é livre? Em que sentido?

    Veja, entendo as razões que levam alguém a ser vegetariano. Mas não entendo as razões que pretendem que o vegetarianismo seja mais do que uma escolha, de um plano de vida – tal qual ser gremista, colorado ou fazer faculdade de direito ou filosofia. Não são opções que possam ser chamadas de “morais” no sentido pesado – apenas escolhas. No sentido público, de algo ser “injustificável”, creio que não preciso dar razões para minhas opções por time ou por alimentação – simplesmente por serem questões privadas. Elas dizem respeito apenas à mim.

    Um abraço, e excelente blog.

  15. Marcelo disse:

    Fabricio, discordo de ti. Toda exploração de animais, sejam humanos ou não-humanos, que ocorre na indústria alimentícia é fruto do descaso do consumidor que não se importa de onde seu alimento vem e que que conseqüências ele causa a terceiros.

    Se queremos ver mudanças, não basta votar de 4 em 4 anos e esperar que o governo faça tudo por nós. Primeiro porque devemos dar o exemplo das mudanças que desejamos ver em nossa sociedade e depois porque o lobby dos grandes empresários é muito mais forte que o nosso voto.

    Devemos sempre procurar opções, e existem para quase tudo. Um bom exemplo é o açúcar, no qual sabemos que na maior parte das plantações, o trabalhador, quando não é escravo, passa fome e trabalha muitas horas por dia. Nesse caso a alternativa é o açúcar agroecológico de agricultura familiar. Açúcar e outros produtos ecológicos da agricultura familiar são encontrados aqui em Porto Alegre, por exemplo, em diversos locais: Loja da Reforma Agrária no Mercado Público, Armazém Ecológico, Feiras Ecológicas do Bom Fim e do Menino Deus, Natureba, Seleção Natural, etc.

    Quando consumimos algo fruto da exploração ou de sofrimento, somos cúmplices diretos. Daria pra dizer até que somos mandantes de tais atrocidades, pois somos nós, consumidores, que pagamos para que essa prática continue existindo.

  16. Marcelo disse:

    Respondendo ao teu outro ponto, onde disseste: “como posso esperar que outros também tenham esta atitude, quando eles não podem fazer esta opção?”. Infelizmente, no mundo, muita gente rouba para comer porque não tem a opção de ir ao mercado comprar sua própria comida. Mas não é por isso que vais começar a roubar, é? Se houvesse a necessidade, se eu tivesse morrendo de fome e não existisse opção de comida a não ser carne, não tenho dúvidas de que eu comeria a carne.

    A questão é, a partir do momento que existe uma opção, não temos justificativa moral para escolher aquela que mais explora ou causa sofrimento a outros seres vivos. Ao optarmos por comer açúcar oriundo de trabalho escravo, estamos recompensando um “coronel” pelo seu trabalho e condenando vários trabalhadores a exploração. Se optamos por não comer açúcar, não contribuímos com essa exploração. Ou ainda, se consumimos açúcar produto da agricultura familiar, estamos incentivando o pequeno produtor, que trabalha para sustentar sua família e toda uma prática que gera mais qualidade de vida e distribuição de renda.

  17. Marcelo disse:

    Finalizando.
    Quando eu escolho não comer carne, não é apenas uma opção livre de julgamentos morais, como escolher ser gremista ou colorado. É uma escolha moral, assim como eu escolho não roubar, não torturar, não matar, ou não fazer qualquer outra coisa que venha a prejudicar terceiros.

  18. Guiga disse:

    Ai meu deus, essa discussão (ou debate) está uma delícia!
    Só vou fazer umas observações:
    – Não acho que seja caro ser vegetariano (como o Fabrício falou)! Por exemplo, 1kg de picanha custa em torno de R$20, enquanto 1kg de berinjela custa por volta de R$2. No entanto acho que a culinária vegetariana é mais trabalhosa…mas isso não vem ao caso agora.
    Ser ético, sim, é caro. Eu não sei quanto custa esse açúcar agroecológico, mas posso exemplificar com produtos de higiene: comprar um sabonete não testado em animais e sem sebo bovino (ou glicerina) é bem mais caro que comprar um Lux Luxo da vida!

    – Acredito que plantas não sejam dotadas de sistema nervoso, consequentemente não sentem dor! Ou, fosse assim, as plantas deveriam ser sedadas antes da poda ou da colheita!

    No mais, acho complicado isso de tentar justificar o vegetarianismo. Antes de qualquer explicação lógica é uma opção de vida. Acho que é ser coerente, acima de tudo. Se você não se importa com os animais, coma carne; mas se você acha a vaquinha bonitinha, não coma! Todos os carnívoros que conheço, se tivessem que carnear um boi pra se alimentar (ou dacapitar uma galinha, ou esfaquear um porco…), seriam vegetarianos.

    PS.: não queria escrever muito, e acabei escrevendo!

  19. Marcelo disse:

    “Se você não se importa com os animais, coma carne; mas se você acha a vaquinha bonitinha, não coma!”

    Discordo profundamente dessa afirmação. Se não devemos respeitar os direitos das pessoas só porque as achamos bonitinhas, porque deve ser assim com os animais? Devemos respeitar o direito dos animais levarem uma vida livre de sofrimentos porque eles são capazes de sofrer e não porque são “bonitinhos”.

  20. Guiga disse:

    Ai Marcelo…don’t misunderstand me!
    É que eu acho incongruente as pessoas que falam “ohhh eu adoro os bichinhos mas não conseguiria viver sem meu bife!”! Fui simplista na minha explicação, sorry.

    Mas vamos combinar que tem muita gente (talvez os mesmos que “amam” seu bife) que só respeita quem é “bonitinho” tb! Se for pobre, sujo e maltrapilho é como se não fosse gente!

    Novamente, desculpa se eu me expliquei mal. Foi só vontade de desabafar com um vegetariano…

  21. Cleber disse:

    A tática do Pirrônico é velha conhecida: jogar com uma falsa incerteza para deixar incerta uma certeza. Engraçado que plantas sejam evocadas automaticamente ao se falar de animais, como se a categorização de ambos sob o rótulo “comida” justificasse esse agrupamento. Só que a discussão é justamente sobre a validade ou não dessa categorização, e vamos por favor falar sério: podemos discutir sim nossa relação com plantas e com animais apenas com o que já sabemos sobre suas diferenças. Antes que toda a filosofia ocidental seja citada, proponho ao nosso amigo, como a qualquer um, uma experiência singelíssima que qualquer camponês ou caçador conhece de perto, mas que está muito longe de nós, urbanos sofisticados e entupidos de cultura: pegue um facão e arranque um pé de alface da terra; depois, use o mesmo facão para matar um porco. Durante a experiência, fique muito atento ao que se passa com a alface, com o porco, e principalmente com você mesmo. Reflita. Depois, aja de acordo.

    PS: como sei o que se passa com a alface, com o porco e comigo mesmo, deixa eu avisar que a experiência deve ser feita abstrata e internamente, o que não é – afinal – difícil para nós, urbanos sofisticados entupidos de cultura.

  22. Andreia disse:

    ótima discussão.
    excelente blog.
    E viva a evolução de qualquer pensamento humano a favor de uma melhor qualidade de vida para todos os seres da terra! Viva o vegetarianismo que não mantém vidas em cárceres de sofrimento!

  23. Thais disse:

    “Quando eu escolho não comer carne, não é apenas uma opção livre de julgamentos morais, como escolher ser gremista ou colorado. É uma escolha moral, assim como eu escolho não roubar, não torturar, não matar, ou não fazer qualquer outra coisa que venha a prejudicar terceiros.”

    Marcelo, excelente tópico e excelente discussão. Está mais do que na hora de o vegetarianismo ser difundido e deixar de ser tabu. Parabéns!

  24. Marlova disse:

    Olá! Interessante discussão…sabe que nunca pensei em ser vegetariana, mas depois de assistir ao vídeo “A carne é fraca” do http://www.institutoninarosa.org.br/, mudei drásticamente de opinião…além do mais, se os vegetais plantados para o consumo dos animais fosse usados para seres humanos, haveria menos fome no mundo e mais água potável!

  25. Manu disse:

    Vai ser ridiulo lá longe. Nós só evoluimos por causa da ingestão de carne, vai passear, que papo-furado…

  26. Marcelo disse:

    Cara Manu,

    Dizer que nós só evoluímos por causa da ingestão de carne é um simplismo (para não dizer equívoco enorme).

    Utilizar processos evolutivos como desculpa para não levar em consideração os interesses dos outros é uma argumentação perigosa.

    A seleção natural (onde os mais fortes sobrevivem e se reproduzem e os mais fracos morrem) teve um papel muito mais importante na nossa evolução que o consumo de carne. Mas se isso não é desculpa para não darmos remédio para os doentes, para não respeitarmos os deficientes físicos e mentais e garantir seus direitos, também não serve de justificativa para que possamos ignorar o sofrimento dos animais não-humanos.

  27. Gustavo disse:

    o Vegetarianismo nada mais é do que o homem negar o que ele realmente é, um mero animal onívoro e hipócrita.


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