Vendendo mortes

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Se por um lado a engenharia nos propicia carros cada vez mais seguros, por que isso não é o suficiente para conter o aumento das mortes no trânsito? Porque a mesma engenharia produz carros cada vez mais rápidos e que fazem com que palio2.jpgo motorista não sinta a velocidade em que está dirigindo. Ou talvez porque publicitários e marqueteiros inescrupulosos, (ir)responsáveis pelas campanhas de publicidade dos automóveis pessoais, criam uma visão de que ter carro é ter “emoção”, como sugere a nova campanha do Palio, da Fiat, com o slogan “Toda emoção está aqui”. O culto pela velocidade1110274371338546.jpg é mais óbvio ainda se considerarmos as imagens em alta velocidade e a busca de uma semelhança do comercial para com um videogame de corrida de carros. De fato, até a logomarca e o visual do comercial são semelhantes aos do jogo Need for Speed.

Outro bom (ou seria mau?) exemplo é o novo comercial da Volkswagen, que mostra uma reunião onde executivos da empresa analisam junto com os publicitários um anúncio televisivo. Um executivo afirma que o comercial está ótimo, mas que o carro tá correndo muito e a Volkswagen não pode incentivar seus clientes a correr e pede que refilmem as cenas com o carro indo mais devagar. Um publicitário responde que não precisa refilmar, que dá pra diminuir a velocidade no computador que fica bom assim. O comercial encerra com a imagem do automóvel em quadro a quadro e com a música Born to Be Wild em baixa rotação. No geral, com uma grande dose de cinismo, o comercial passa uma mensagem de que o carro corre muito (mais que o permitido) e que “rápido” é bom e “lento” é ruim e sem graça.

Dezenas de milhares de pessoas morrem todos os anos em acidentes automobilísticos. É a principal causa de morte entre jovens. E ao invés de a indústria incentivar a responsabilidade na direção, é justamente o contrário. Comerciais de carro deveriam ser regulamentados, como os de cigarro.

Não é de se esperar isso de uma indústria que sempre colocou o lucro acima da segurança, como conta a história da General Motors. Em 1993, durante um julgamento nos E.U.A. foram encontrados documentos que comprovam que a GM pôs a maximização do lucro acima da segurança pública. Para diminuir custos, o tanque de combustível do modelo Malibu 1979, foi colocado próximo demais do parachoque traseiro e sem a devida proteção. O resultado é que o carro incendiava facilmente ao sofrer batidas na traseira. A GM sabia desse risco, mas para modificar o desenho do carro, gastaria U$6,19 a mais por carro do que se tivesse que indenizar as vítimas dos possíveis acidentes, logo não fez modificações no modelo.

A emoção que uma pessoa mais ganha ao comprar um carro é o estresse.

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3 Comentários on “Vendendo mortes”

  1. sergiok disse:

    Publicitários mercenários…
    Outra coisa bizarra na publicidade automobilísca nesses dias é o slogan “Gaúcho, conte comigo” da Chevrolet. Contar com quem???? Como se Chevrolet fosse uma pessoa.

  2. Vanessa disse:

    Pior que o incentivo para comprar carro, dirigir em alta velocidade é cada vez maior. Só quem já perdeu alguém próximo em um acidente de carro sabe como é fácil morrer e como a vida é frágil. Se quer correr, que jogue Need for Speed e pronto.

  3. Bárbara Lima disse:

    Como estudante de publicidade sei que a profissão é alvo de duras críticas por diversos tipos de pessoas, porém é muito fácil taxar toda a publicidade como negativa. Todo tipo de generalização é burra, ainda mais quando estabelce argumentos muito superficiais. O papel da publicidade não é vender a qualquer custo como alguns acreditam. Ela tem sim sua carga de responsabilidade muito alta, mas também ser condenada a censuras absurdas é burrice e covardia. O foco primordial da publicidade não está no anúnciante e sim no consumidor, pois para que o anunciante obtenha sucesso a reposta positiva ou negativa deve vir do consumidor, e este é um ser com capacidade de discernimento, é um ser inteligente e capaz de pensar por si próprio. Todos somos consumidores e não acredito que nos auto-entitulemos como incapacitados!
    O papel da publicidade é sim criar fantasia e desejos porque isso faz parte da vida humana, assim como o consumo de bens simbólicos também faz! Condenar o comercial como assassino é ser ignorante ou ingênuo demais, a velocidade como sinônimo de vanetura habitou e habita o consciente do homem, quer com este comercial ou não.


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