Pensamentos sobre força e violência

Este texto não fui eu quem escrevi, mas me tocou. Foi um discurso de Pattrice Jones na Conferência dos Direitos Animais em 2006:
jones.jpgConversa de tartaruga

Esta foto foi tirada na Cidade de Baltimore em 1971. A tartaruga se chamava Timothy. A garotinha se chamava Patti-Lee. Ela cresceu para se tornar eu.

Em um dia de verão não muito diferente de hoje, a pequena Patti-Lee estava na frente daquela casa de barcos com um pé na calçada e um pé no nosso quintal, pulando de uma perna para outra e dizendo: “nossa propriedade, não nossa propriedade, nossa propriedade, não nossa propriedade, nossa propriedade, não nossa propriedade”.

Ela estava encucada. Ela tentava descobrir. Mas não importa o quanto ela pensasse, ela nunca conseguia fazer isso soar justo.

Ela sabia que seus avós tinham comprado a casa de alguém que tinha comprado a casa de alguém, até os tempos em que a casa foi construída. Mas como aquele pequeno pedaço de terra veio a pertencer a uma pessoa ao invés de outra em primeiro lugar?

Ela lembrou do que tinha aprendido na escola sobre os Pioneiros e os Índios. Ela imaginou um Pioneiro com seu mosquete construindo uma cerca e ameaçando atirar em qualquer um que invadisse o que havia se tornado a sua “propriedade”.

Não parecia correto que as árvores e os esquilos, que antes pertenciam a si mesmos, agora pertencessem a ele apenas porque tinha uma arma. E se aquilo não era correto, ela ponderou, com poderia ser correto para as pessoas que compraram a terra das pessoas que compraram a terra das pessoas que compraram a terra dele dizerem “isso é minha propriedade”?

E foi assim que, nesses jogos de criança, a pequena Patti-Lee chegou numa verdade que muitos adultos ignoram: Propriedade é violência.

Então essa garota cresceu e está aqui para convencê-los de que arrombar cadeados, destruir gaiolas, sabotar retroescavadeiras, e outras formas de interferir com a propriedade são atividades anti-violência. Eu também espero convencê-los que protestar nas calçadas públicas é sempre correto, não importando o que os defensores da santidade das propriedades privadas que cercam essas calçadas possam dizer.

A divisão do mundo em países com fronteiras policiadas por exércitos foi e continua sendo um processo violento que machuca tanto animais humanos como não-humanos.

A subdivisão do mundo natural em pedaços desconexos de propriedade privada prejudica animais também. Cercas interrompem ecossistemas, dividem lares e famílias e impedem o acesso a recursos como fontes d’água. Cercas confinam animais, transformando-os em escravos e depois em pedaços e fatias de propriedade que podem ser comprados e vendidos.

É hora de derrubar essas cercas, libertando animais e devolvendo seus habitats.

É claro que a violência nunca é permitida uma vez que é ela a raiz de todos os nossos problemas.

Violência ou o uso excessivo uso injurioso da força é injustificável. Muitos usos da força não são violentos. Como você pode saber a diferença? É fácil se contextualizarmos.

Um dia, Patti-Lee estava de pé no topo de um lance de escadas, encarando um adulto bravo e fora de controle não diferente desses que vemos em vídeos não-autorizados de laboratórios de vivisecção. De repente, o adulto que grita lhe dá um forte e brusco empurrão nos ombros, e a manda, rolando, escada abaixo. Isso foi violência.

Mas exatamente a mesma ação muscular – um brusco e forte empurrão nos ombros – teria sido justificado e até mesmo heróico se ela estivesse parada no caminho de um caminhão em alta velocidade.

Eu lhes conto esses detalhes da minha vida para que vocês saibam que eu sei o que a violência realmente é.

Pense num animal que sabe o que é ser espancado e ferido e espera, espera, espera que um dia alguém venha lhe resgatar: arrombar um cadeado não é violência, destruir jaulas não é violência, jogar uma chave inglesa nas engrenagens de uma máquina que mata animais não é violência, carregar um animal ferido e amedrontado para um lugar seguro não é violência e – certamente – usar calçadas públicas para denunciar abusos que ocorrem por trás de portas fechadas não é violência.

Dê uma olhada na foto.

E se a garotinha estivesse presa dentro daquela casa de barcos e sendo queimada por fogo? Você não arrombaria a porta para ajudá-la a escapar?

E se ela visse aquela tartaruga ser torturada no porão do seu vizinho? Ela não pularia pela janela para ajudá-lo a escapar? Ela não arrombaria a janela se ela precisasse? Ela não usaria seus pequenos músculos contra os do torturador se isso fosse preciso pra fazer a violência parar?

E se a tortura estivesse ocorrendo num laboratório de vivisecção?

E se a garotinha descobrisse que os lares daquela tartaruga e de toda sua família fossem ser terraplanados para dar espaço para casas bacanas para pessoas que já possuem casas em perfeito estado para morar? Se ela pudesse, não iria colocar um pouco de açúcar no tanque de gasolina da retroescavadeira ou usar uma chave-inglesa em seu motor? Eu acho que ela iria.

E se a garotinha descobrisse que seu vizinho estava torturando filhotes de cachorro no seu emprego? Você não pode imaginá-la andando de baixo pra cima nas calçadas com cartazes de protesto? É claro que ela seria muito cuidadosa pra não fazer nada que pudesse assustar os cães, gatos ou crianças que moram nas redondezas. Mas ela não iria querer que o mundo soubesse: “Este homem machuca animais!” e ela não estaria correta?

Eu fiz 300 cópias de uma foto minha para distribuir hoje não porque sou egocêntrica mas porque eu quero que vocês tenham algo para se lembrar do que eu disse essa noite.

Eu quero que vocês se lembrem que há uma diferença entre força e violência e que é o contexto que determina a diferença.

Eu quero que vocês se lembrem que violência nunca é legal, mas que a força às vezes é necessária.

Eu quero que vocês se lembrem que propriedade é violência e que nos podemos – e devemos – interferir na violência se nós quisermos um mundo no qual garotinhas e tartarugas possam estar seguras, felizes, e livres.

Nem todo mundo precisa fazer esse trabalho mas todos nós devemos ser solidários com os que fazem.

Então, se algum dia você estiver a ponto de denunciar ou se afastar dos corajosos e sensíveis ativistas que arriscam a sua própria liberdade para libertar animais e proteger seus habitats, que quero que você olhe esta foto e se lembre do que eu disse hoje.

Se você é um desses bravos e sensíveis ativistas, bem, você sabe quem você é e o que precisa fazer. O que eu quero que você saiba é que você não está sozinho. Onde quer que você vá para levar a verdadeira ação direta e não violenta pela terra e pelos animais, aquela garotinha vai com você.

E quando eu parar de falar e as pessoas começarem a aplaudir, os aplausos vão ser para vocês.”

Pattrice Jones é co-fundadora do Centro de Educação e Santuário da Margem Leste e devota seu tempo e energia para ajudar patos e galinhas que sofreram abusos. Também lançou um livro, Aftershock, lançado pela Lantern Books.

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5 Comentários on “Pensamentos sobre força e violência”

  1. walfridoneto disse:

    O texto é lindo. Tá adicionado. Meu blog é:
    http://walfridoneto.wordpress.com
    Abraço!

  2. Vanessa disse:

    Realmente o texto é muito emocionante, de encher os olhos de lágrimas. Impossível não deixar de pensar que um dia eu também fui uma garotinha com uma tartaruga (ou gato, ou cachorro etc). Acho que todos deveriam procurar as crianças que já foram e redescobrir o amor e a preocupação pelos animais que tivemos na infância…

  3. Maurien Trabbold disse:

    O texto realmente é muito profundo e emotivo, ele trata de um tema que realmente acontece uma situação verídica, em que poucos estão dispostos a lutar para poder mudar ela.

  4. Micaela disse:

    Violência é subjugar outro ser à sua própria vontade. É não respeitar o outro, enquanto um sujeito de direitos. No caso dos animais, eles, infelizmente ainda, não são considerados pela sociedade, sujeito de direitos. Portanto, se eu entrar num matadouro ou num mercado de animais e libertar todos aqueles infelizes que estão na fila da morte, segundo as leis atuais, estarei cometendo violência.
    Por enquanto, temos que trabalhar na linha da conscientização da sociedade, através dos boicotes e dos manifestos pacíficos.

  5. eijygoto disse:

    Propriedade é violência? NÃO! NUNCA SERÁ!
    violência é ler essa baboseira!


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